A importância do papel do receptor na arte de comunicar

Como professor de oratória há 20 anos, tenho me atualizado constantemente no que concerne às ideias, conceitos e as naturais e inexoráveis mudanças ocorridas neste campo do conhecimento no decorrer dos anos. Ultimamente, tem se tornado um discurso comum entre os comunicadores a visão de que o emissor é o principal responsável pelo processo da comunicação. De acordo com esse recorrente ponto de vista, se o receptor interpreta erroneamente uma mensagem é em virtude de uma falta de habilidade, assertividade ou qualquer outra competência do emissor.

Com relação a esta polêmica questão, prefiro me posicionar de uma maneira distinta. Penso que as construções discursivas se constituem através do fenômeno social de interação verbal e não verbal entre o eu e o outro. Tanto o emissor quanto o receptor são sujeitos atuantes na cadeia comunicativa, pois ambos estão naturalmente influenciando o jogo da comunicação com seus repertórios culturais, as suas leituras de mundo, as suas bagagens de experiências. O que existe é sempre uma relação dialógica no ato da comunicação.

Logo, acredito que, para uma boa comunicação, não basta a competência e a habilidade do emissor da mensagem. De fato, é delicado afirmar que a responsabilidade é literalmente 50 a 50%, entretanto, penso que o papel do receptor é tão importante quanto do emissor, logo, ambos devem ter uma postura ativa e engajada no processo da comunicação.

Se a responsabilidade recai somente no emissor, inevitavelmente, gera-se uma situação cômoda e passiva para o receptor, pois o seu sucesso e a sua assertividade deixam de ser medidos pelo mérito dele e isso pode acarretar um baixo desenvolvimento de suas competências comunicacionais.

Com a experiência adquirida nestas duas décadas de atuação no âmbito da oratória, cheguei à conclusão de que a qualidade no processo da comunicação, na grande maioria das vezes, independe da eficiência do emissor da mensagem. Mesmo transmitindo as informações de forma clara e assertiva, se o receptor não desenvolver habilidades no seu papel, de nada adiantará a boa qualidade de quem estiver transmitindo a mensagem. Portanto, é importante frisar que a responsabilidade para uma boa comunicação advém de ambos os comunicadores estarem ativos e dispostos no processo.

De tudo que já observei nesta posição de emissor, no caso atuando como instrutor de oratória, entendo que existe um rol de competências e habilidades que são preponderantes para o receptor. A primeira delas é ouvir o outro com presença, concentração e boa vontade. Para que a absorção do conhecimento aconteça, é também necessário ao receptor a empatia em estar aberto para entender o ponto de vista alheio e ter a humildade para não impor sua opinião no processo.

Outra competência fundamental é o controle da ansiedade no momento da interpretação e decodificação da mensagem a fim de só escutar o que, de fato, é relevante. Por fim, o receptor deve suspender os seus pré-conceitos e afastar sentimentos, como preguiça e má vontade, para estar disponível e preparado para ouvir a opinião do outro.